sábado, 12 de setembro de 2026

A farsa da polarização: o verdadeiro inimigo da democracia é a cultura do aniquilamento

Tem se tornado habitual ouvir analistas e cidadãos atribuírem todos os males da política brasileira à chamada "polarização". Trata-se de um diagnóstico raso, uma conveniência retórica que justifica o embate visceral e a difusão do ódio sem encarar as reais raízes do problema. Atribuir a crise institucional à mera existência de dois polos é pura falácia — uma leitura superficial que favorece justamente os arquitetos da política da violência.

A polarização, por si só, não é uma anomalia democrática. O Brasil conviveu por décadas com divergências agudas no plano nacional sem que o país descambasse para o clima de guerra civil que presenciamos hoje. Entre os anos 1990 e 2014, a disputa presidencial entre PSDB e PT cristalizou dois polos claros — o centro social-democrata e a esquerda. O debate era ostensivo e apaixonado, mas a preservação do pacto democrático permanecia acima dos interesses partidários. Foi justamente sob essa dinâmica de contraponto que o sistema de proteção social brasileiro se consolidou. A violência política, quando ocorria, ficava circunscrita a disputas municipais herdeiras do velhos mandonismos locais, que gradualmente perderam força com o avanço da educação e o surgimento de novas lideranças.

Olhar para fora também desfaz o mito de que ter dois lados é um mal em si. Na maior economia do mundo, os Estados Unidos, a política historicamente se dividiu entre Democratas e Republicanos. Na Inglaterra, a alternância entre Trabalhadores e Conservadores estrutura o debate público. Nessas nações, o confronto de projetos sempre existiu, mas encontrou balizas no respeito às regras do jogo.

No Brasil, o contorno do debate mudou de forma dramática quando setores da oposição passaram a assimilar e normalizar o discurso de eliminação do adversário, processo visível a partir das manifestações de 2013 e 2014. Sob o pretexto de contestações difusas, bandeiras de tom autoritário e nostalgias do regime militar ganharam as ruas sob o manto do verde e amarelo, ecoando a linguagem que antecedeu o golpe de 1964.

Esse movimento atingiu seu ápice com o impeachment de Dilma Rousseff e a subsequente ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Revelando uma trajetória pautada pelo desprezo aos ritos democráticos — simbolizada pelo lamentável voto de exaltação a um notório torturador da ditadura na sessão do impeachment —, o exercício do poder transformou-se em uma rotina de ataques às instituições, ameaças de ruptura, negacionismo científico em plena pandemia e alimentação constante de nichos radicalizados.

A amplificação desse ambiente contou com a engrenagem decisiva dos algoritmos das redes sociais, desenhados para premiar o ultraje, manter a indignação em nível máximo e engajar massas por meio da desinformação diária.

Portanto, o desafio do Brasil contemporâneo não é a existência de divergências profundas ou a coexistência de visões de mundo antagônicas. A democracia pressupõe pluralidade, contraditório e divergência acirrada. O verdadeiro veneno que corrói o tecido social é a substituição do debate de ideias pelo desejo de extermínio do outro. Enquanto a opinião pública continuar culpando a "polarização" em abstrato, continuará mascarando o real perigo: a normalização do autoritarismo e a rejeição consciente da convivência democrática.