Tem se tornado habitual ouvir analistas e
cidadãos atribuírem todos os males da política brasileira à chamada
"polarização". Trata-se de um diagnóstico raso, uma conveniência
retórica que justifica o embate visceral e a difusão do ódio sem encarar as
reais raízes do problema. Atribuir a crise institucional à mera existência de
dois polos é pura falácia — uma leitura superficial que favorece justamente os
arquitetos da política da violência.
A polarização, por si só, não é uma anomalia
democrática. O Brasil conviveu por décadas com divergências agudas no plano
nacional sem que o país descambasse para o clima de guerra civil que
presenciamos hoje. Entre os anos 1990 e 2014, a disputa presidencial entre PSDB
e PT cristalizou dois polos claros — o centro social-democrata e a esquerda. O
debate era ostensivo e apaixonado, mas a preservação do pacto democrático
permanecia acima dos interesses partidários. Foi justamente sob essa dinâmica
de contraponto que o sistema de proteção social brasileiro se consolidou. A
violência política, quando ocorria, ficava circunscrita a disputas municipais
herdeiras do velhos mandonismos locais, que gradualmente perderam força com o
avanço da educação e o surgimento de novas lideranças.
Olhar para fora também desfaz
o mito de que ter dois lados é um mal em si. Na maior economia do mundo, os
Estados Unidos, a política historicamente se dividiu entre Democratas e
Republicanos. Na Inglaterra, a alternância entre Trabalhadores e Conservadores
estrutura o debate público. Nessas nações, o confronto de projetos sempre
existiu, mas encontrou balizas no respeito às regras do jogo.
No Brasil, o contorno do
debate mudou de forma dramática quando setores da oposição passaram a assimilar
e normalizar o discurso de eliminação do adversário, processo visível a partir
das manifestações de 2013 e 2014. Sob o pretexto de contestações difusas,
bandeiras de tom autoritário e nostalgias do regime militar ganharam as ruas
sob o manto do verde e amarelo, ecoando a linguagem que antecedeu o golpe de
1964.
Esse movimento atingiu seu
ápice com o impeachment de Dilma Rousseff e a subsequente ascensão de Jair
Bolsonaro à Presidência da República. Revelando uma trajetória pautada pelo
desprezo aos ritos democráticos — simbolizada pelo lamentável voto de exaltação
a um notório torturador da ditadura na sessão do impeachment —, o exercício do
poder transformou-se em uma rotina de ataques às instituições, ameaças de
ruptura, negacionismo científico em plena pandemia e alimentação constante de
nichos radicalizados.
A amplificação desse ambiente
contou com a engrenagem decisiva dos algoritmos das redes sociais, desenhados
para premiar o ultraje, manter a indignação em nível máximo e engajar massas
por meio da desinformação diária.
Portanto, o desafio do Brasil contemporâneo não é a existência de divergências profundas ou a coexistência de visões de mundo antagônicas. A democracia pressupõe pluralidade, contraditório e divergência acirrada. O verdadeiro veneno que corrói o tecido social é a substituição do debate de ideias pelo desejo de extermínio do outro. Enquanto a opinião pública continuar culpando a "polarização" em abstrato, continuará mascarando o real perigo: a normalização do autoritarismo e a rejeição consciente da convivência democrática.